quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pecado Capital

- E aí Gigante ? Bão ou não ?
- Bão.
- Vê uma ficha, uma pinga e um torresmo.
- Uma gilete também ?
- Pra que vou querer gilete Gigante ?
- Pra depilar o torresmo uai.
Continuou gargalhando enquanto servia o café melado de tanto açúcar.
O Zeca sorvia o café já acendendo um cigarro.
Cumprimentavam-se assim há mais de dez anos, desde que o Gigante resolvera transformar a garagem da casa em botequim.
O comodo era apertado, quase um corredor, metro e meio, se tanto, da porta até a geladeira, antiga, moradia de cervejas, refrigerantes e salsichas, que quando promovidas a tira-gosto, iam guarnecer a bandeja da estufa que reinava soberana sobre o tampo do móvel.
Na parede de trás uma pia onde uma dúzia de copos aguardavam para servir os clientes, e em um dos lados duas prateleiras de madeira, presas com mãos francesas, com o estoque de cachaça.
Zeca procurou assunto, futebol, o noticiário de ontem, fez piada com o cabelo descolorido do Patrão, o sem-que-fazer do bairro que também espairecia por ali, mas era inevitável.
Gigante deu um jeito de trazer Dora para a conversa, seu assunto único e inesgotável.
Uma vez Dora fez isto, outra vez aquilo.
Dora ralhando, Dora dengando. Gigante adorava a esposa.
Quando parou de falar para tomar folego Patrão deu de maldar.
- Cadê Dora Gigante ? Não tenho visto.
- Passando uns dias com a mãe, volta logo.
Patrão trocou um olhar com Zeca, uma risada silenciosa brincando na boca.
Zeca fez que não viu.
Era amigo de infância de Gigante, cresceram juntos no bairro, inseparáveis.
Nunca tiveram segredos, até o dia em que Gigante chegou contando que conhecera uma moça e tinha se apaixonado. Tinham o mesmo gosto. Zeca guardou a paixão e ouvia sofrido as confidências do amigo. Após o casamento chegou a se mudar para Valadares,  a saudade o trouxe de volta dois anos depois. Guardou distância mas quando ocorreu o acidente foi de novo o velho companheiro.
Invejara  o amigo pelo amor de Dora, agora, que não tinha mais Dora, invejava aquela loucura mansa que a fazia presente.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Segunda Feira

Amanhã iria acordar às seis,
pra fazer uma caminhada,
ziguezagueando entre as árvores,
até lá longe, no trevo, da estrada de Sabará.
Na volta ia entrar na matinha e seguir pela trilha da esquerda,
sair pelo portão dos fundos e descer até o parque.
Tomar uma água de coco, gelada,
sentado na arquibancada do anfiteatro vazio,
e aproveitar bem o sol, até o dia acabar.

Melhor acordar às oito,
descer para a academia e fazer meia hora de esteira,
um monte de alongamentos e todas as séries devidas.
Na volta, passar pela padaria, quem sabe também na feira,
visitar o jornaleiro e terminar no boteco,
pra falar mal dos políticos,
contratar Messi pro Galo e espiar moças bonitas.
Encostar uma cadeira no freezer
e ficar fazendo nada, até o dia acabar.

Talvez acordar às dez,
e depois do terceiro bocejo,
dar uma olhada no Face e carga no celular.
Ligar a televisão sem saber o que assistir.
Se esparramar no sofá, folhear dois ou três livros
e não escolher nenhum.
Escancarar a janela
pra olhar as nuvens passando
e levando o tempo com elas.
Ah ! Bem provável que se canse,
e volte de novo a dormir, até o dia acabar.

Amanhã vai ser diferente.

Hoje acordou às sete.
Tomou banho e se vestiu.
Comeu frutas picadinhas, temperadas com iogurte.
Caminhou uns dez minutos até o ponto do ônibus.
Esperou mais outro tanto, até poder embarcar.
Se acomodou, em pé, junto à porta.
Vai seguindo pro trabalho,
lá longe em Belo Horizonte.


domingo, 21 de setembro de 2014

Tacale pau Galo Véio !

Foi minha prima Monica que achou a frase resumo do dia.
O dia em que o Galo mandou avisar que esta chegando.
Lembrou a todos que o Mineirão é nosso salão para ocasiões especiais
... e que já ganhamos foi de 9 x 2 !!!

Tacale pau Galo Véio !

Desassossego

Vinha com o amarrado de cipó na mão esquerda e trazia o facão na direita.
Parou ao lado dos trilhos.
Quase invisíveis sob a vegetação, seguiam para o desconhecido.
Deitou a carga no chão, ajoelhou-se devagar e aproximou o ouvido da viga.
Deu com o dorso do facão e ficou ouvindo o tinir de aço com aço viajar até o fim do mundo.
Era um barulho diferente do grito da sumaúma quando ele batia nas sapopembas com as mãos espalmadas.
O tuc-tuc grave das águas no interior das raízes ocas da mãe do mundo soava como uma chegança, uma saudação da mata para seus habitantes.
O tuin zunido do trilho era uma coisa que ele não conseguia decifrar, deixava o peito apertado e a cabeça embaralhada.

Desconfiava que iam dar na cidade. Queria muito conhecer. Não podia. A mãe tinha jurado.
Por causa desta cisma, uma vez, quando era mais moço, voltara pra traz depois de caminhar mais de dia beirando a linha. Sentiu que era aviso o pontilhão destruído numa garganta do rio.
Enxergou o brilho dos trilhos se esticando na outra margem e fechou os olhos.
A mãe não ia gostar. Nunca mais seguira aquele rumo.

Levantou-se e procurou a sumaúma. Contornou o roçadinho de mandioca e foi beirando o rio até chegar na quedinha  d`água. Pediu licença a árvore e retirou com cuidado um talho de casca.
Encontrou a mãe perto do fogo, rasgando e amassando as folhas que chegavam até o meio do pote de barro. Botou no chão o amarado de cipó e a casca da sumaúma.

Saiu sem rumo, sentindo a umidade da mata tomar conta de seu corpo.
Sentiu uma tristeza nova.
Não deu por si deitando-se sobre os dormentes e apoiando os braços sobre os trilhos, as mãos segurando o aço. A noite o encontrou ainda imóvel. Tentando comungar com o desconhecido.
Cismando.
Queria muito conhecer a cidade.
Quem sabe a mãe não esquecia a jura ?
Ela agora esquecia tanta coisa.
A lua subiu e ele bateu com os indicadores sobre os trilhos.
Não ouviu nenhum som.
Continuou esperando.
Imóvel.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Hora do Recreio

Woodstock e a copa de 70 já eram história, mas BH ainda era a capital da Tradicional Família Mineira e do sossego.
As moças só nos beijavam no escondido dos jardins, mas podíamos atravessar a cidade de ponta a ponta na madrugada sabendo que o maior risco era não encontrar tira-gosto nos botecos.
Foi nesta época que conheci a Claudinha.
Com seus dezessete anos era a mais jovem, e a única menina, numa turma que descobria as dores e alegrias de disputar uma vaga de engenharia na UFMG. As provas iam acontecer nas arquibancadas do Mineirão e as respostas, que deveriam ser registradas com marcas, a lápis 2B, em um cartão "Hollerith Mark Sense", seriam nossa passagem para o céu ou para o inferno.
A disputa era uma guerra, uma interminável aula de cálculo.
Claudinha era a hora do recreio.
Pernas compridas, longos cabelos claros com aquela franja que não se usa mais enfeitando um rosto bonito, de traços finos, com um sorriso incansável em uma boca de dentes pequenos e muito separados. Dizia que nascera com menos dentes que as pessoas normais. Ninguém nunca duvidou.
Sentava-se sempre na mesma carteira.
Os lugares em volta não tinham dono certo, eram ocupados por quem chegasse primeiro.
Os marmanjos buscavam a proximidade não pela oportunidade de conversar mas disputando o privilégio de serem portadores em primeira mão da notícia mais aguardada do dia, a cor das calcinhas da Claudinha, que invariavelmente se revelava fosse pelos modos estouvados fosse por artes da sempre presente mini-saia.
Faladeira, gostava de contar histórias e sempre sacava um assunto inesperado.
Se mudara para BH para estudar e morava sozinha com o irmão - sem os pais !!! - imagina o assanhamento da rapaziada.
Um dia no boteco explicava a delícia que era um doce de macarrão (eca !) quando ao ver um desenho que eu rabiscara na capa da apostila não conteve o espanto.
- Mas como que você sabe ?
- Como eu sei o que Claudinha ?
- Que os seios da gente não são iguais, um é maior que o outro ?
Bati a cinza do cigarro e empurrei o desenho - um tronco feminino com uma cabeça de flor - para o cento da mesa. Não precisava dizer mais nada. Fiquei saboreando a glória de ter a minha expertise na anatomia feminina confirmada em público pela maior autoridade da turma.
Não estudei engenharia e nunca mais vi Claudinha.
Uma vez me disseram que tinha aberto uma pousada em Floripa.
Ano passado ouvi que tinha voltado para o Maranhão casada com um senador.
Também não soube de mais ninguém que houvesse elogiado meu profundo conhecimento do corpo e da alma das mulheres.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Moinhos de Vento

Se julgava mais inteligente que as outras pessoas. Talvez fosse. 
Tivesse nascido duas decadas depois seria um maluco desbundado, com cabelos compridos e talvez até uma barba.
Se buscasse modelos de heroísmo é provável que os encontrasse nos combatentes do Al Fatah.
Calhando de viver nos idos dos 40 usava cabelos curtos e barba escanhoada, e sua vida loca era tida apenas como desregrada.
Percorreu estradas por sua conta e risco e conheceu muitos segredos que o mundo só revela aos caminhantes.
Sonhou com a glória de ser piloto da Luftwafe e escarneceu da sociedade tatuando no braço o nome da amada, coisa de marujo e de gente baixa da estiva.
Um dia, quase por acaso, perdeu-se e prendeu-se em uns versos de Kipling, da mesma forma que ocorreu com dom Alonso Quixano quando apresentado aos livros de cavalaria. 
Enlouqueceu para sempre. 
Viveu e morreu como se fosse o personagem do poema. 
Seguia o código de honra que deduziu das rimas.
Orgulhoso de si mesmo, fidelíssimo aos amigos, sem nenhum apego aos bens materiais, perdia fortunas nas mesas de jogo para provar ser capaz de refaze-las.
Um cavaleiro medieval que não devia satisfação de seus atos a ninguém a não ser a sua própria consciência.
Quase no final de sua jornada fez um dos filhos repetir-lhe o poema.
Talvez como um legado, talvez apenas para se certificar, ouvindo as palavras novamente, de ter vivido a vida certa.
Poemas escondem lá no fundo a poderosa magia primeva da criação da realidade.
Ouviu com atenção mais uma vez.


Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para estes no entanto achar desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretencioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;

Se encontrando a Derrota e o Triunfo conseguires
tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste;

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa só parada
Tudo quando ganhaste em toda a tua vida;

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.

Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


Rudyard Kipling (tradução de Guilherme de Almeida)

Aye

Apesar de todo nosso esforço para separar os tempos em anos redondos a História teima em colocar seus marcos seguindo outra lógica, e 2014 vai ficando cada vez mais com a cara de abre alas que o novo chegou.

Em meio ao furor nacionalista que toma o mundo, a Europa se redesenhar a leste não foi nenhuma novidade, de certa forma era até esperado, pois a mãe Russia sempre foi muito zelosa de seus filhos.
A surpresa me vem da Grã Bretanha. Acordar amanhã com uma Escócia independente não estava no radar de ninguém que não fosse, ele próprio, escocês.  Claro que já estamos acostumados a ver a turma se dividir em quatro países para disputar a copa do mundo mas vai ser muito estranho a Union Jack sem a camada azul.

Os Beatles, Mary Quant, Mary Poppins, James Bond, Lady Di, ingleses, galeses, escoceses, de certa forma até mesmo os irlandeses, o pop inteiro, a vida toda, sempre vieram embrulhados naquela bandeira de cruz e xis em vermelho azul e branco sinônimo de moda descolada.

Papa Chico já considera que vivemos a terceira guerra mundial.
Quem sou eu para contradize-lo.