quinta-feira, 10 de outubro de 2019

12 de Outubro


Neste dia, "das crianças", em 1968, também era sábado.
Um milheiro de estudantes se reunia "secretamente" em um sítio em Ibiúna/SP. Tiritando de frio debaixo de uma garoa fina discutiam a organização e estratégias do movimento estudantil e a situação política do país quando foram surpreendidos por rajadas de metralhadora disparadas para o alto junto às cercas do sítio.

A tropa da PM paulista embarcou todo mundo em 40 ônibus logo despachados em comboio para São Paulo. Recolhidos ao presídio Tiradentes e depois, a maior parte, transferidos para o Carandiru foram identificados como elementos subversivos e comunistas.
Naquele tempo ainda existiam comunistas, o homem não havia pisado na lua, o Brasil não era tricampeão, não existia internet e os professores eram profissionais liberais ombreados com engenheiros, médicos e advogados.

Estudar e ensinar eram atividades muito bem vistas.

Os jornais do domingo manchetaram a operação na primeira página. Reproduziram as declarações do governador Abreu Sodré se vangloriando da ação firme em defesa da família brasileira e dos valores cristãos, a apreensão de um poster do Che, de um manual de guerrilha e de várias cartelas de pílulas anticoncepcionais.

No Calafate a notícia chegou no final da tarde. Escorados nas grades do muro da casa dos Mendonça especulamos sobre os boatos de que o Portugal, que era do Grêmio do Salesiano tinha escapado por pouco. O assunto rendeu mais um tanto naquela esquina famosa, embora dividindo atenções com o 2x0 do Santos sobre o Cruzeiro e a entrada criminosa de Pelé quebrando o joelho do Procopio.
Todo mundo meio embasbacado, apreensivo, mas ninguém percebeu a dimensão real do fato.
Ninguém achou que precisava tomar qualquer atitude.

Dois meses depois foi publicado o AI 5 e aí o bagulho ficou doido.
Até o Dr Tancredo aparecer e a gente achar que o novo tinha vindo.

Outubro de 2019.
Estudar, ensinar, pensar são, de novo, atitudes muito suspeitas.
Textos são proibidos nas escolas por terem sido escritos por comunistas.
Políticos articulam projetos para ideologizar o ensino sob um viés obscurantista.
Professores são ameaçados.

O novo veio de novo.

O que VOCE vai fazer a respeito ?



















domingo, 12 de fevereiro de 2017

De fadas e netas













Franze a testa, cerra os lábios, aperta o lápis nos dedos.
Deita o traço com capricho, que é uma lição de casa.
Joga a cabeça pro lado e apaga a letra, irritada.
Não gostou do resultado.
Refaz a tarefa com esmero.

Caprichosa e exigente gosta de tudo perfeito.
Não quer ser segunda em nada.
Tomara que a vida lhe ensine que a perfeição não existe.

Perfeito só o sorriso, que esconde, mostra e escancara
no palmo de rosto moreno mais lindo que já se viu.
Rosto que às vezes se esconde, atras de cabelos
que brilham, tocados pela magia de uma secreta canção,
que mostram o caminho escondido, que leva de volta pra casa
depois da grande aventura da primeira reinação.

Ah menina, aproveita que ainda podes, trafegar entre dois mundos.
Ver princesas e castelos entre os balanços e a piscina.
Ser rainha no recreio e a irmã mais velha do Gus.

Guarda sempre este sorriso, este brilho no olhar,
vive sem medo sua vida,
não tenha juízo não.

Que as estrelas, as mais fieis companheiras, estejam sempre contigo.
Segue em frente com coragem,
Descubra que a felicidade vem embrulhada na mágica da mesma canção, aquela, que faz seu cabelo brilhar.

 Um beijo minha fada netinha !


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Pax Brasilis


Em tempos de troca de guarda, com muros erguidos e derrubados, de muitas mortes matadas e de mais ainda morridas, por fome, peste ou chamamento de Deus, me quedo bestando, admirando os ocorridos como que se nada tivessem comigo. Escuto os sinos do Hemingway dobrando lá longe sem perceber que dobram por mim e por todos nós.

Não tem jeito, a visão é horrível demais para que eu possa admitir sua existência no mundo real.

O melhor que me permito é observar em perspectiva e tentar racionalizar. Aceitar a ideia da espiral do Corsi e Ricorsi da história pode ser um bom começo.  Vou cotejando, apanhando uma palha aqui, outra lá, vou tecendo um cesto onde colocar angustia e esperança.

Olho para o Norte e esfrego os olhos, mal acreditando, que o presidente dos americanos decretou o fim do império. Diz que não gasta mais um cent que seja na segurança dos outros, que o mundo que se vire para resolver seus conflitos. Vivemos quase um seculo sob a Pax Americana. Como vai ser sem o imperialismo ianque ?

O terror que sucedeu a derrocada do império e da Pax Romana, com a luta interminável entre os senhores de terra ao final do primeiro milênio, levou a Igreja a construir o conceito da Pax Dei para proteger suas próprias riquezas e as vidas do povo pobre. Apoiada na coerção do poder de Deus criou zonas de segurança, com territórios e períodos livres de combate.
Deu certo, apareceu até a cavalaria andante.

O surgimento de estados nacionais veio transformar esta estória em simplesmente história.
O tempo passou, hoje, nem Deus nem o Diabo recebem as mesmas honras de outrora.

O mundo fica sem dono ? Certeza que os ianques só vão se preocupar com o próprio quintal ? Ou o apoio ao Brexit é prenuncio de que vamos assistir à fundação da Commonwealth versão ampliada ?

Olho para o Brasil e não me espanto mais, deixamos de há muito de respeitar as leis. Escolhemos dentre as inumeras que temos, quais, em que instantes e em quais circunstancias iremos cumprir.  É como se houvesse um acordo: estamos em transição, deu tudo errado, então tudo pode.

Examinando com um algum rigor, o início de nosso calvário atual coincide com a promulgação da constituição de 1988.  Criamos uma peça inexequível, confusa, conflitante, uma quimera impossível.

Desde 1988 o que mais se ouve da boca dos legisladores, juízes e governantes de todos os matizes políticos é que as leis brasileiras não são boas e que devem ser reformadas. E quem vai se submeter a leis que não são boas ?    

Hobbes nos ensinou que o pacto tácito que permite a convivência harmônica em uma sociedade pressupõem o respeito à Lei, e há que existir um ente com poder coercitivo para que esta seja cumprida, de forma a garantir a vida, a propriedade e o bem estar dos cidadãos desta sociedade.

Quando a qualidade da Lei ou o poder de coerção de seu patrocinador não são percebidos pelos cidadãos ficam dadas as condições para a dissolução da própria sociedade. Esta situação em seu grau mais terrível pode ser vista com clareza na Líbia e no Sudão, hoje, terras de ninguém.

No Brasil já temos bolsões importantes de áreas urbanas dominadas por quadrilhas e milicias.
Nos últimos dias constatamos que as prisões são um país à parte. E a Lava Jato nos mostra que também os negócios possuem suas próprias normas e condutas, que existe um Estado de fachada e um Estado real.

Por que ainda existe o Estado brasileiro ? Porque queremos que ele exista. Não somos como o alemão da piada que ao ser indagado sobre se iria a uma manifestação contra um novo imposto, respondeu "claro que não, manifestações são proibidas", mas intuímos que apesar de todas as mazelas um Estado é melhor que nenhum Estado.

Até quando dura a Pax Brasilis ?

Post Scriptum

E os fatos atropelaram as conjecturas.
O que se imaginava distante e ruim, veio rápido e pior, muito pior.
Em Brasilia tramas indecentes que preservem poderes e dinheiros roubados são maquinadas à luz do dia. Congresso, Executivo, Tribunais, perderam a compostura, não temem a voz do povo.
No Espirito Santo, por uma nesga entreaberta na porta do inferno o fedor de enxofre e sangue pisado empesteia o ar e dá forma ao terror.

Brasil, Brasil, não era este o destino que te sonhamos.
Tenho eu, alguma culpa ? Tem você ?
Não sei. Vem aqui uma lembrança.
Quando deixei este escrito era um dois de fevereiro.
Bem podia ter cumprido com singela obrigação.
Tornar meu cesto um balaio, com espelhos e perfumes, para ser jogado no fundo do buraco de Iáiá.

Senhora dos Navegantes, bota tento nesta terra.
Alivia esta aflição, traga paz e mostre o rumo, para um porto que nos abrigue, e nos esconda do mal,
 dai-nos juízo e coragem para refazer a nação.

Odoyá Iemanjá !


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Tesouros secretos

A vida nos oferece muitas riquezas,
cada uma de uma cor,
cada qual com seu sabor.
Amizades, amores,
paisagens, instantes,
sonhos sonhados, alguns alcançados,
vão formando nosso tesouro.

Às vezes,
quando temos sorte,
pescamos a perola negra,
aquela que sozinha,
em silêncio, de mansinho,
condensa a essência da vida
numa dobra de espaço tempo
que nos basta e nos faz bastar.

Se eu encontrei a minha ?
Não digo.
Que as riquezas que a vida nos dá
não são de se anunciar.
São para serem apreciadas
com gosto, e compreensão
de que a luz que nos ilumina
vem do nosso coração.

Bizet enxergou a perola negra na amizade e no amor



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Não esquenta, tá tudo dominado !

neste verão de incertezas e trabalhos
ao ouvir o riso de uma criança,
e seguir seu bailado marcando o tapete da sala,
enxerguei a confiança brilhando em seu olhar.
alguma música secreta lhe chegava aos ouvidos
explicando que a vida é fácil de levar
e que o verão, ah o verão !

é sempre o melhor dos tempos.



domingo, 8 de janeiro de 2017

O Tempo Vai Apagar ?

Saudade das madrugadas de verão no Calafate.
Festas de formatura no Clube dos Oficiais e serenatas apaixonadas para todas as meninas do bairro.
Patrícia vai cantando Roberto e eu me lembrando do terno risca de giz, da gravata vermelha e das ruas calçadas de paralelepípedos, todas, por algum sortilégio, desembocando na Maranguape.
Tem coisas que o tempo não apaga.

Domingos de paz


Para os que creem e também para os que não creem no milagre da Eucaristia,
os versos de São Tomas de Aquino na voz de Kiri Te Kanawa.




Pão dos Anjos
Pão dos Anjos
Torne-se o pão dos homens;
O pão do paraíso
Fim de toda dúvida;
Que maravilha!
Que consome a Deus
Pobre, pobre,
Humilde servo.
Pobre, pobre,
Humilde servo.
Pão dos Anjos
Torne-se o pão dos homens;
O pão do paraíso
Fim de toda dúvida;
Que maravilha!
Que consome a Deus
Pobre, pobre,
Humilde servo.
Pobre, pobre,
Humilde servo.

Panis Angelicus
Pannis angelicus
Fit panis hominum;
Dat panis coelicus
Figuris terminum;
O res mirabilis!
Manducat dominum
Pauper, pauper
Servus et humilis.
Pauper, pauper
Servus et humilis.
Panis angelicus
Fit panis hominum;
Dat panis coelicus
Figuris terminum;
O res mirabilis!
Manducat dominum
Pauper, pauper
Servus et humilis.
Pauper, pauper
Servus, servus et humilis.