quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A penny for the old Guy

Acho que o povo é conservador, ama a ordem e o progresso.
Em 1605 Guy Fawkes, que não gostava muito do bom rei James I, tentou explodir o parlamento inglês usando barris de pólvora. Foi  o verdadeiro V. 
O serviço secreto de sua majestade descobriu o plano. 
Ele foi preso e executado.
Todo 5 de novembro os ingleses ainda soltam fogos de artifício e queimam bonecos de Guy.
Neste dia as crianças saem pedindo "a penny for the old Guy" para produzir a festa.
O financiamento é exclusivamente privado.
TS Eliot andou refletindo a respeito da natureza de homens, ratos e espantalhos, e descobriu que é possível viver sem alma e que o mundo, não se acaba em uma explosão, mas num suspiro. 
Mas isto a gente já tinha ouvido de Marlon Brando em Apocalypse now.

TS Eliot - Os homens ocos 
 
Uma moeda para o velho Guy 

( tradução de  Ivan Junqueira )

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra                                          Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
                                                                             A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
                                                                    Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
               
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The Hollow Men

A penny for the Old Guy

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us - if at all - not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.


II

Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer -

Not that final meeting
In the twilight kingdom


III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death's other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.


IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms
In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.


V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o'clock in the morning.
Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
                                        For Thine is the Kingdom
Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
                                                    Life is very long
Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
                                        For Thine is the Kingdom
For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

A menina de verde

Estava descalça, tinha os cabelos curtos e claros, quase louros.
Vestia um traje verde, acolchoado nos joelhos e cotovelos.
Compenetrada, respirou fundo, apertou as rédeas na mão e levou o cavalo a trote pelo longo corredor até a entrada do enorme picadeiro.
Já num meio galope, ouvia os aplausos e gritos de incentivo enquanto ia executando acrobacias que arrancavam exclamações de admiração e incredulidade.
A série de exercícios ia se repetindo e o cavalo circulando em torno do tablado central.
Aos poucos, o ruído das palmas foi sendo abafado pelo de uma voz conhecida que ficava cada vez mais alto até se tornar o único som em sua cabeça.
- Vamos almoçar ?
Encostou o cavalo na mesinha da sala e emburrou.
Não quero, e trancou a boca.
Ia ser uma ginasta.
Ginastas são muito fortes, não precisam almoçar.
Venceu pelo cansaço e dormiu sem comer.

No meio da tarde acordou vitoriosa e saiu para o passeio de sábado.
Cavalgou nos ombros do pai até a floresta da praça, onde as arvores, que se erguiam até o céu, escondiam bandos de passarinhos nos galhos de cima e todos aquele bichinhos engraçados entre as raízes. Correr pelo chão de pedras brancas e vermelhas que não se acabava nunca, conversar com os peixes do tanque, brincar com outras crianças, disto ela sempre gostava.
Ia ser arquiteta, reprojetar o mundo como uma imensa praça e todo almoço ia ser de pipoca e algodão doce.

Já meio escuro fez o caminho de volta na cadeirinha dos braços do pai.
Vinha viajando entre as luzes das vitrines, colecionando novidades e surpresas, até encantar-se com um novo amigo, o coelhinho de pelúcia rosa mais macio do mundo.
Agradeceu com um beijo registrado para sempre na memória do pai.
Ia ser psicanalista e entender a alma das pessoas.

Muitos anos depois, sentada na varanda, pés descalços repousando num tapete de sol, olhou o fundo da xícara e viu refletido no chá a imagem de uma menina franzina, vestindo um traje verde, gineteando o cavalinho de pau com um coelhinho rosa.
Levou a xícara aos lábios e sorveu a lembrança.

Traçara seu próprio curso cavalgando o destino em pelo, mãos firmes a segurar-lhe as crinas.
Agora era gente grande, o mundo lhe parecia pequeno e almoçava quando queria.
Procurou os sapatos, fez um carinho no gato e foi cuidar da vida.
Foi vestir um traje verde.


sábado, 4 de outubro de 2014

Vai começar a festa !

Amanhã a esta hora, já teremos a presidente com um novo mandato ou a definição de um segundo turno.

De duas coisas tenho certeza de que vou me sentir orgulhoso.
A primeira é do processo eleitoral que implantamos neste Brasilsão, rápido, seguro, supimpa !
Exemplo para o mundo !

A segunda é do povo brasileiro que sabe sim como votar.
Engana-se quem acredita que o povo vota enganado.
O povo vota é como quer, segundo seus próprios interesses, que podem não ser os mesmos dos formadores de opinião, dos amigos, dos parentes, dos anjos ou dos demônios.

Os pobres, os analfabetos, os habitantes dos grotões, tanto quanto os sábios e a elite metropolitana sabem pesar e escolher proposta políticas.

Votos não tem CEP nem CPF e têm todos o mesmo valor.

Quando sair o resultado, seja qual for, vamos comemorar a vitória da democracia representativa.
Se o nosso candidato não vencer é porque a maioria dos eleitores discordou de nossas opiniões.

Democracia representativa.
Pode ser ruim, mas ainda é o melhor dos regimes que a civilização inventou.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Over The Rainbow & What A Wonderful World

Este é o Israel 'IZ' Kamakawiwo'ole  ou simplesmente IZ

Iz é muuuuuito grande.
Iz canta divinamente.
Iz gosta de chocolate.
Iz é feliz.                            www.youtube.com/watch?v=Z26BvHOD_sg

Seja feliz você também.


Eppur si muove

Há de se ter cuidado com a crescente onda de intolerância contra opiniões "fora de moda".
O direito à expressão é o núcleo das liberdades individuais.

Quando as crenças que não são as nossas são criminalizadas, e banidas do debate pela força, apenas adiamos o confronto de idéias, causa, e consequência, do aprimoramento da civilização.

A militância LGBT, insuflada por grupos políticos oportunistas e apoiada pela grande mídia, vem, de maneira sistemática e a meu juízo, equivocada, confundindo a profissão de crenças morais e religiosas, legítimas, seculares e entranhadas na sociedade, com atos de discriminação e segregação de minorias, estes sim, odiosos e indesejáveis.

Quem viveu os anos de chumbo, se recorda bem dos assuntos proibidos.

Os que pregam a diversidade deveriam ser os primeiros a entender que a tolerância é uma via de mão dupla e que, no campo das idéias ela não pode ser limitada. Somente a intolerância é intolerável.

Tenho fé que ainda vamos poder, civilizadamente, rever a lei 7.716, que criminaliza a discriminação, nos pontos em que tipifica como crime a incitação ao preconceito, limitando o direito de expressão. A abrangência do artigo é espantosa, e elenca "raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência".

Ao pé da letra pode ser enquadrado em injúria quem me chamar de "velho babão", ou de "anão homofóbico" ao  Levir Fidélis.

Sim, eu prefiro que as pessoas tenham o direito de expressar preconceitos e defendo a descriminalização de todos os "delitos de opinião".

Criminalizar o pensamento mais que uma violência é uma inutilidade. Idéias proibidas tem o dom de se esconder e sobreviver. Preconceitos e discriminações devem ser combatidos à luz do bom combate, no dia a dia de cada um de nós, livres  para agirmos e pensarmos, censurados apenas por nossa consciência.

Em 17 de fevereiro de 1600 um frade que dizia que o Sol era maior que a Terra, que o universo era infinito e se confundia com Deus, que todas as religiões eram boas e também que padres e mulheres deviam se permitir o prazer, teve a língua arrancada e foi queimado em Roma, no Campo di Fiori.

Em 22 de junho de 1633 outro homem, que acreditava que a Terra girava em torno do Sol, escapou do mesmo destino abjurando sua crença. Reza a lenda que, dando as costas aos juízes, sussurrou a um companheiro Eppur si muove.

A comparação é forte ? Pois é, não existe liberdade relativa.

V de vergonha

Negar licença para advogar a Joaquim Barbosa é uma das vingancinhas mais torpes e mesquinhas que esta República já viu.

Tinha que acontecer em Brasília, cidadela do "direito achado na rua" e túmulo da idoneidade moral da nação.

Joaquim é, de fato, grosseiro, pedante, presunçoso e, acredito, de trato difícil, mas até onde se tem público, é uma pessoa íntegra.

Pode-se não concordar com suas convicções e muitos devem deplorar seus feitos, mas nem ele nem o povo brasileiro, que, em sua grande maioria, se vê representado pelo magistrado, são merecedores da bravata calhorda da OAB-DF.

42 Horas

A postura menos agressiva de Dilma nos últimos dias me faz crer que o PT escolheu Aécio como adversário.

No debate da Globo, bateu forte em Marina quando citou a prisão por corrupção do funcionário do IBAMA.

Claro que vitória no primeiro turno é uma probabilidade forte, até pela enorme quantidade de votos brancos e nulos, mas o arsenal esta melhor preparado para combater o tucano caso a eleição não acabe neste domingo.

Mais uma vez os votos de Minas serão decisivos. Com Pimentel vencendo já no primeiro turno e garganteando a derrota de Aécio em seu próprio território, a disputa federal pode virar um fim de semana em Gramado para Dilma.

Pode acontecer outra virada ? Eleições em Minas, são o reino de todas as possibilidades, as decisões só acontecem na boca da urna, como bem sabem Hélio Costa e Leonardo Quintão, mas o cenário mais provável é a volta ao ponto de partida, petistas contra tucanos, eles contra eles.

Faltam 42 horas.