quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Pax Brasilis


Em tempos de troca de guarda, com muros erguidos e derrubados, de muitas mortes matadas e de mais ainda morridas, por fome, peste ou chamamento de Deus, me quedo bestando, admirando os ocorridos como que se nada tivessem comigo. Escuto os sinos do Hemingway dobrando lá longe sem perceber que dobram por mim e por todos nós.

Não tem jeito, a visão é horrível demais para que eu possa admitir sua existência no mundo real.

O melhor que me permito é observar em perspectiva e tentar racionalizar. Aceitar a ideia da espiral do Corsi e Ricorsi da história pode ser um bom começo.  Vou cotejando, apanhando uma palha aqui, outra lá, vou tecendo um cesto onde colocar angustia e esperança.

Olho para o Norte e esfrego os olhos, mal acreditando, que o presidente dos americanos decretou o fim do império. Diz que não gasta mais um cent que seja na segurança dos outros, que o mundo que se vire para resolver seus conflitos. Vivemos quase um seculo sob a Pax Americana. Como vai ser sem o imperialismo ianque ?

O terror que sucedeu a derrocada do império e da Pax Romana, com a luta interminável entre os senhores de terra ao final do primeiro milênio, levou a Igreja a construir o conceito da Pax Dei para proteger suas próprias riquezas e as vidas do povo pobre. Apoiada na coerção do poder de Deus criou zonas de segurança, com territórios e períodos livres de combate.
Deu certo, apareceu até a cavalaria andante.

O surgimento de estados nacionais veio transformar esta estória em simplesmente história.
O tempo passou, hoje, nem Deus nem o Diabo recebem as mesmas honras de outrora.

O mundo fica sem dono ? Certeza que os ianques só vão se preocupar com o próprio quintal ? Ou o apoio ao Brexit é prenuncio de que vamos assistir à fundação da Commonwealth versão ampliada ?

Olho para o Brasil e não me espanto mais, deixamos de há muito de respeitar as leis. Escolhemos dentre as inumeras que temos, quais, em que instantes e em quais circunstancias iremos cumprir.  É como se houvesse um acordo: estamos em transição, deu tudo errado, então tudo pode.

Examinando com um algum rigor, o início de nosso calvário atual coincide com a promulgação da constituição de 1988.  Criamos uma peça inexequível, confusa, conflitante, uma quimera impossível.

Desde 1988 o que mais se ouve da boca dos legisladores, juízes e governantes de todos os matizes políticos é que as leis brasileiras não são boas e que devem ser reformadas. E quem vai se submeter a leis que não são boas ?    

Hobbes nos ensinou que o pacto tácito que permite a convivência harmônica em uma sociedade pressupõem o respeito à Lei, e há que existir um ente com poder coercitivo para que esta seja cumprida, de forma a garantir a vida, a propriedade e o bem estar dos cidadãos desta sociedade.

Quando a qualidade da Lei ou o poder de coerção de seu patrocinador não são percebidos pelos cidadãos ficam dadas as condições para a dissolução da própria sociedade. Esta situação em seu grau mais terrível pode ser vista com clareza na Líbia e no Sudão, hoje, terras de ninguém.

No Brasil já temos bolsões importantes de áreas urbanas dominadas por quadrilhas e milicias.
Nos últimos dias constatamos que as prisões são um país à parte. E a Lava Jato nos mostra que também os negócios possuem suas próprias normas e condutas, que existe um Estado de fachada e um Estado real.

Por que ainda existe o Estado brasileiro ? Porque queremos que ele exista. Não somos como o alemão da piada que ao ser indagado sobre se iria a uma manifestação contra um novo imposto, respondeu "claro que não, manifestações são proibidas", mas intuímos que apesar de todas as mazelas um Estado é melhor que nenhum Estado.

Até quando dura a Pax Brasilis ?

Post Scriptum

E os fatos atropelaram as conjecturas.
O que se imaginava distante e ruim, veio rápido e pior, muito pior.
Em Brasilia tramas indecentes que preservem poderes e dinheiros roubados são maquinadas à luz do dia. Congresso, Executivo, Tribunais, perderam a compostura, não temem a voz do povo.
No Espirito Santo, por uma nesga entreaberta na porta do inferno o fedor de enxofre e sangue pisado empesteia o ar e dá forma ao terror.

Brasil, Brasil, não era este o destino que te sonhamos.
Tenho eu, alguma culpa ? Tem você ?
Não sei. Vem aqui uma lembrança.
Quando deixei este escrito era um dois de fevereiro.
Bem podia ter cumprido com singela obrigação.
Tornar meu cesto um balaio, com espelhos e perfumes, para ser jogado no fundo do buraco de Iáiá.

Senhora dos Navegantes, bota tento nesta terra.
Alivia esta aflição, traga paz e mostre o rumo, para um porto que nos abrigue, e nos esconda do mal,
 dai-nos juízo e coragem para refazer a nação.

Odoyá Iemanjá !


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